Dalila Rodrigues e Vereadores da Cultura em Portugal

Não vou comentar o caso “Dalila Rodrigues”. Não gosto de falar daquilo que não sei. E como ainda não consegui perceber o que na realidade aconteceu, vou remeter-me ao silêncio. Mas o caso “Dalila Rodrigues” fez-me reavivar um sentimento que eu penso escontrar-se algo recalcado em mim.

Aquilo que vos gostaria de confidenciar aqui é o seguinte: eu não consigo dormir na noite anterior a ter uma reunião com um vereador da cultura, em Portugal.  Está dito. Podem gozar comigo mas isto é a mais pura verdade. Sempre que tenho uma reunião agendada, começo a ficar com dores de cabeça, falta de apetite e um nervosismo que chega a irritar o meu círculo íntimo de familiares e amigos.

Para já, por todo o aparato que se cria quando entra o vereador da cultura na sala de reuniões. Parece que está a entrar o Papa na sala e eu sou a coitadinha que ali vai apresentar uma proposta de exposição; a maluquinha que vai aborrecer alguém com o trabalho de um artista, também ele maluquinho. Depois, porque apresentar uma proposta a um vereador da cultura é o mesmo que estar a apresentar uma proposta a um árabe (podia ser a um chinês ou a um indiano), ou seja, fico sempre com a sensação de que não estamos a falar a mesma língua, que a pessoa não está a perceber nada do que digo. Ele não sabe de que artistas estou a falar, ele não vibra com as ideias apresentadas, ele não percebe nada de História da Arte, ele não visita exposições e os únicos artistas que muitas vezes conhece são os da vila. Tenho ouvido imensas pérolas que me têm deixado desanimada: “Isto é muito à frente”, “Isto é muito contemporâneo”, “Isto é muito mórbido. Não tem aí uma coisa mais alegrete?”, “O Sr. Presidente não vai gostar desta ideia”, “Temos de expor as redes dos pescadores da aldeia neste centro cultural e não temos mais espaço”, “Não podemos dispensar mil euros com este projecto porque vamos pagar dez mil ao cantor X para as festas Y” (entendo que haja prioridades, mas calma aí).

Só queria lembrar o seguinte: são as autarquias que mais perto estão dos munícipes. São as autarquias que têm o poder,  principalmente, o Vereador da Cultura,  de mudar mentalidades a nível cultural no nosso país.

Mais não digo. Acho que depois disto não voltarei a ser recebida por parte de nenhuma câmara municipal do país para apresentar mais propostas de exposição. É o risco que se corre. Não queria deixar de frisar que, neste assunto, também existem “excepções à regra”. A esses, felicito-os.

Cláudia Camacho

AntiFrame  – Independent Curating Project

Resumindo, era isto que vos queria contar.

Advertisements

About this entry