Ex-sedentários [Num país esgotado] | Curador

Entrevista feita a Cláudia Camacho (coordenadora do projecto AntiFrame – Independent Curating Project) por Bárbara Nogueira no âmbito da Expocolgaia’10

Cláudia Camacho

Habilitações académicas

Doutoranda em História da Arte Contemporânea na Facultad de Bellas Artes da Universidad Complutense, em Madrid.

Descrição da actual actividade profissional;
(descrever o que faz, número de horas, se gosta ou não, o que gostava de mudar?)

Sou curadora indepedente, ou seja, concebo, planifico e organizo exposições de arte contemporânea nas suas mais variadas expressões. Desde 2007 sou a coordenadora do projecto AntiFrame – Independent Curating Project (curadoria, design e educação artística). Gosto muito do que faço e, dificilmente, mudaria algo no meu percurso profissional. Quando tenho uma ideia para uma exposição consigo estar dias e dias sem pensar em mais nada. Procurar trabalhos de artistas, a níveis nacional e internacional, que possam fazer sentido naquele conceito que estou a criar para a exposição é deveras alucinante. Esta é para mim a parte mais bonita da minha profissão. A parte que menos gosto de todo este processo é a inauguração. Parece que todos os meses intensivos de trabalho acabaram ali, naquele momento. Tenho alturas do ano em que chego a trabalhar 16 horas por dia. Mas também posso ficar três meses sem qualquer projecto em mãos, o que me assusta um pouco.

Sente-se realizada com as experiências profissionais que já realizou?

Os maiores projectos expositivos que realizei até hoje foram concretizados fora de Portugal. É lamentável que não me sinta realizada no meu próprio país mas também é algo que já não consigo nem quero esconder. Eu costumo dizer que vou ganhar dinheiro lá fora para depois investir em projectos meus cá dentro. Depois há projectos que me motivam mais do que outros, claro está. Todo e qualquer projecto que tenha a capacidade de me transformar como pessoa tem o meu imediato interesse. Como sempre dei importância a questões sociais talvez sejam esses os temas que mais me seduzam: memórias, arquivos, passados, traumas, violência de género, questões ambientais. Resumindo: aquilo que nos move. E em Portugal vejo tão poucas exposições assim. Encontro tudo tão racionalizado na Arte. As exposições são maçadoras, demasiado críticas, como o brasileiro diz: “sem graça”.

Profissões alternativas, qual a opinião sobre estas profissões, acha que a sociedade lhe dá o real valor?

Quando digo que sou “Curadora” muitas pessoas nem sabem o que isto significa. Muitos pensam que estou ligada a medicinas alternativas, outras pensam que sou decoradora de interiores. Não é uma profissão usual, na verdade. Mas é a minha e, por isso mesmo, tento sempre explicar às pessoas o que faço para que elas também fiquem informadas.

Acha que a infância teve especial importância na escolha da profissão actual?

Quando tinha 13 anos decidi organizar a minha primeira exposição. Tinha recolhido muitas conchas e pedras numas férias passadas no Algarve e achei por bem mostrar aquilo a um público mais geral. Organizei as conchas e pedras em categorias, concebi uns papéis informativos e fui colá-los na porta da entrada do prédio publicitando assim a exposição que poderia ser visitável no 4.º andar, onde vivia com os meus pais. A entrada era paga. Já não sei quanto é que estava a pedir pelo bilhete. Como é óbvio os meus pais quando chegaram do emprego não acharam muita piada à ideia e arrancaram o papel da porta. Acho que ficaram confusos com tal ideia e não perceberam muito bem o conceito. Já agora devo referir aqui que, até hoje, defendo que as entradas nas exposições devem ser pagas. Se alguém me explicar por que razão eu pago para ir ao cinema, ao teatro, a um concerto e a um jogo de futebol e não devo pagar para visitar um museu ou uma exposição prometo que voltarei a pensar neste assunto!

O que mudava em Portugal no âmbito da cultura?

Mudava “algumas” coisas: a falta de interesse do público português por actividades culturais (que deveria ser fomentada logo desde o 1.º ano de escolaridade com uma disciplina de cultura geral) e a falta de transparência do sistema artístico em Portugal. Uma vez escrevi num blogue que esta opacidade existente em Portugal é bastante nociva. Opacidade em subsídios atribuídos (que alimenta ainda mais a subsídio-dependência em Portugal), a opacidade de mentalidades das pessoas que estão à frente das instituições culturais e que nada fazem por elas. Importamos exposições já feitas e não temos capacidade de sermos bons exportadores. Não se sabe exportar artistas. E os que são exportados são sempre os mesmos Há cunhas e mais cunhas no meio artístico. Todos se conhecem. Todos se apoiam na sua precariedade. Não há Crítica de Arte em Portugal. O ensino nas faculdades, em Portugal, deixa muito a desejar; não há qualquer tipo de reciclagem. Não convidam novos curadores para nada. Há muita falta de visão em Portugal (já agora coloco esta questão: já se aperceberam que os espanhóis trabalham mais as manifestações artísticas contemporâneas africanas do que nós???). Continuamos presos ao prego, à moldura e à escultura dos anos 70. Encontramos muita resistência em tudo. Não há espaço nos meios de comunicação para publicitar eventos que não sejam os da Fundação Serralves, Museu Berardo e Culturgest. Há poucas revistas culturais. Há pouca sensibilidade para mecenatos e patrocínios culturais. Pensam que o trabalho de um curador é gratuito. E o do artista também. Bem, não vou continuar. É desta que não me voltam a convidar para mais nada em Portugal!

Qual a personagem que mais a marcou a nível da infância/adolescência/vida adulta?

A minha mãe.

Qual a opinião em relação aos hábitos culturais dos portugueses?

Esta pergunta deixa-me inquieta. Quero mudar isto. Sinto que todos nós podemos mudar. Estive recentemente, a convite da Faculdade de Belas Artes de Bratislava, na Eslováquia, a fazer um residência para curadores. Fui a única portuguesa seleccionada e disso me orgulho. Pela proximidade geográfica fui até Viena algumas vezes. Um dia, perto do Quarteirão dos Museus, fui abordada por um senhor que me queria vender bilhetes para uma valsa. Disse-lhe que nessa noite não poderia ir mas que voltaria para a semana acompanhada a Viena e que então iria pensar no assunto. Entretanto, começámos a conversar e ele perguntou-me de onde eu era. Ao responder Portugal ouço isto: “… pois, Viena, música, valsa, Mozart; Portugal, futebol”. Confesso que não consegui deixar de pensar no que aquele homem me disse até hoje. Fiquei triste por saber que apenas somos conhecidos pelo futebol. E quero mudar isto. E peço para que toda a gente queira mudar isto. Os hábitos culturais dos portugueses fazem-se… mas isto também leva o seu tempo. É nisso que temos de trabalhar.

A viagem que mais a marcou

Posso dizer que sou uma pessoa viajada. Já passei por Londres, Paris, Roma, Viena, Bratislava, Berlim, Madrid, etc. Contudo, as viagens que mais me marcam são aquelas que faço através da minha mente. Aquelas que faço à Macedónia sem nunca lá ter estado. Ou ao Azerbeijão, ou ao Vietname. São todas aquelas que faço quando alimentadas por uma boa música, um bom filme, um bom livro ou uma boa companhia.


About this entry