Texto da exposição “Histórias e Desejos de quem Dorme”

“There are two tragedies in life: one is not getting what one wants, and the other is getting it.” Oscar Wilde

Vezes de mais olhamos para nós sem nos vermos. O espelho é talvez o único objecto que tenta reproduzir com nitidez quem se lhe defronta. É o único a fazer-nos aceitar o presente carregado de passado. Não prevê, não augura. Testemunha. Silenciosamente, testemunha. Retém nele o que de mais corpóreo há em nós. E o que sumidamente se desmaterializa na ausência. É o único objecto que consegue lealmente acompanhar todos os nossos movimentos corporais não sendo nunca surpreendido. Compete com a sombra. Mas esta é mais parca em detalhes. A memória do espelho é sempre fugaz, intermitente. Ele só se lembra de nós quando o defrontamos frente-a-frente, interrogando-o. Ao espelho não lhe interessa reflectir uma História, porque só a Vida já lhe basta. As histórias, os episódios, os desejos, os prazeres, que podem chegar a obsessões, fazem parte das tragédias silenciadas de difícil acesso até mesmo para um espelho. A exposição “Histórias e Desejos de quem Dorme” tenta reflecti-las no espectador.

Cecilia de Val questiona a identidade individual através da multiplicidade do “Eu”. Se conseguíssemos imprimir todas as imagens reflectidas num só espelho durante uma vida teríamos acervos intermináveis. Mas o espelho insiste em esconder aquilo que mostra. Cecilia de Val faz o contrário. Tenta mostrar numa só narração o desdobrar da personagem em heterónimos. Não somos nós. Mas também não deixamos de o ser.

Nem nunca deixamos de o ser também quando sonhamos. As situações criadas ou idealizadas por nós no período de tempo em que dormimos são do foro mais íntimo possível. Ninguém sonha os sonhos do outro. Nos sonhos geramos uma vida paralela àquela que vivemos quando conscientes. Reproduzimos de forma sublimar uma realidade que nos é familiar mas revestida de contornos singulares, de vertigens. Johann Ryno de Wet objectiva o seu inconsciente ao fixar o que fica dos seus sonhos em suporte fotográfico. Seremos mais honestos, quanto aos nossos desejos, enquanto dormimos? Já Victor Hugo dizia que “julgar-se-ia bem mais correctamente um homem por aquilo que ele sonha do que por aquilo que ele pensa.”

Se o diálogo que o nosso corpo estabelece com o espelho nem sempre é profícuo, por falta de honestidade, o mesmo já não poderemos dizer daquele que é estabelecido entre o corpo e o desejo. Repressões, perversões, transgressões vão esculpindo este último até tomar forma humana. O corpo é o templo sagrado do desejo. Ana Rito sugestiona o espectador desvelando uma realidade inconclusa. O desejo vive dessa sedução mental. O corpo já “é”. Tudo o resto é “ser”.

Muitas das vezes dá-nos uma vontade de irmos a correr para a frente de um espelho e perguntar-lhe, ou melhor, perguntarmo-nos: afinal, quem somos? Margarida Paiva vai mais longe e pergunta Who lives in my head? E fá-lo de uma forma tão consecutiva que quase nos leva ao desespero. Tornamo-nos obsessivo-compulsivos de nós próprios. Ou de um “Eu” que há em “Nós”. É o medo a apoderar-se da nossa fragilidade. É o medo de não encontrarmos uma razão coerente para as nossas tragédias. É o medo de não nos conseguirmos decidir se cumprimos o nosso desejo ou se o deixamos morrer.

Corremos para o espelho. Apagamos a luz. Deixamos de nos ver. Silêncio.

Cláudia Camacho


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