Entrevista dada no âmbito do Mestrado em Comunicação, Cultura e Tecnologias de Informação | ISCTE

Entrevista dada a Ilda Maria Pires no âmbito do Mestrado em Comunicação, Cultura e Tecnologias de Informação do ISCTE (cadeira “Organização e Intervenção Cultural” – professora Idalina Conde).

Qual a importância do comissário ou curador numa exposição fotográfica?

Costumo igualar o papel do curador ao de um contador de histórias e ao de um maestro. O curador coordena a orquestra, tal como um maestro, de forma a que o resultado final de uma exposição seja este: dar a ver da melhor forma (contando a história da melhor maneira). O curador é um mediador entre a obra/artista e o visitante. Para isso deverá elaborar o projecto científico-cultural e definir as suas características, seleccionar e localizar os objetos a expor, coordenar o discurso expositivo e o desenho de montagem, contribuir com informação para a exposição (textos, documentos, etc), redigir os textos que irão ser utilizados no material de comunicação, etc, etc, etc.

Essa importância está directamente relacionada com a dimensão e a temática da exposição?

Eu trabalho com igual afinco para a Gulbenkian, para a Câmara Municipal de Vila Franca de Xira ou para o Circulo de Bellas Artes, em Madrid, como já aconteceu. Sim há uns que me pagam melhor do que os outros e os métodos de trabalho nesta área em Portugal deixam muito a desejar. Continuamos a ser um país de feudos. Mas é sempre o conceito da exposição que determina a aceitação ou não de um projecto.

Aceitar ser curador/comissário numa exposição fotográfica está relacionado com a identidade, reputação, credibilidade e notoriedade da instituição e do autor ou o que impera na decisão é a temática da exposição?

Aceitar ser a curadora numa exposição fotográfica está relacionado com a linha curatorial de cada curador. Gosto de trabalhar particularmente com fotografia, performance e video. Não gosto de trabalhar em exposições antológicas. Gosto de trabalhar com artistas vivos. Gosto de exposições interactivas. Motiva-me mais trabalhar com artistas fora do circuito comercial, mesmo que depois venham a integrá-lo mais tarde, pelo real valor da sua obra. Gosto de temáticas Mas isso depende do ego da cada curador. Tenho visto obras fantásticas de artistas não conhecidos. Se me peguntarem se prefiro pegar nessas obras e criar um conceito de exposição para o Sintra Museu de Arte Moderna ou ir para o MOMA ser a curadora de uma exposição de Picasso escolho a primeira hipótese. Depende do ego do curador e o meu é proporcional ao prazer interno que essa exposição me possa dar. Mas por aí não passa a notoriedade nem da institutição nem do artista. Centro-me na oportunidade que me é dada para explorar novos territórios expositivos.

Um gabinete de comunicação eficaz e empreendedor, com estratégias de comunicação definidas pode substituir o papel do curador/comissário na exposição?

Já vi quererem substituir o papel do curador pelo do produtor, artista, organizador… agora pelo gabinete de comunicação, nunca. Aliás, o que é o gabinete de comunicação, por muito eficaz e empreendedor que seja, sem um criador de conceitos? Nada. Se há não um conceito criado à volta da exposição o gabinete de comunicação vai comunicar o quê? No entanto, volto a referir o seguinte: não costumo trabalhar para exposições cuja visibilidade seja nula, por isso, o gabinete de comunicação é um elemento indispensável neste Todo.

Em seu entender o que define o êxito e sucesso de uma exposição fotográfica?

Esta resposta é pouco poética mas é a mais real que poderei dar: o público. É o público que na verdade define o êxito de uma exposição; quer seja fotográfica ou não. Trabalhar para públicos fechados, elitistas deve ser muito aborrecido. Isso, como curadora, não me move. O que me move é conseguir atrair para uma exposição pessoas que não têm por hábito visitá-las. Em Madrid, na Fundación Telefónica, em plena Gran Via, numa visita guiada que estava a fazer à exposição de Zhang Huan apareceu-me um grupo de cerca de 17 pessoas calçadas com galochas até aos joelhos e cheias de terra e com sacos onde predominavam verduras; tomates, batatas, rabanetes, etc. Foi até hoje uma das experiências mais gratificantes que tive pois tive o triplo de trabalho para os motivar. Mas valeu a pena. A inocência das suas perguntas fizeram-me ir para casa e pensar sobre todo este universo artístico. Costumo dizer que se alguém visita uma exposição e sai de lá da mesma forma como entrou então a exposição não está a resultar. Não tem de sair feliz e contente. Pode sair infeliz, revoltado, pensativo. Não pode é sair de lá indiferente. Acredito que haja artistas que não estejam minimamente interessados em que as suas obras sejam entendidas. Eu não sou artista, sou curadora. Por isso o meu objectivo como criadora de conceitos é dar uma leitura às peças que estão expostas, respeitando sempre a sua individualidade e fazendo com que esta chegue ao público, como uma experiência rica. Dum lado mais prático a questão do público é também aquele que faz um patrocinador apoiar ou não um evento, neste caso, uma exposição. Para mim, não será, portanto, tanto a quantidade de público mas o nível de intervenção que a exposição consegue ter no mesmo.

Cláudia Camacho

Advertisements

About this entry